A história do mineiro que trocou a estabilidade de servidor público pela rotina de empreendedor

Por Fernanda Santos

Lucas Baganha, dono do Empadinha Mineira, deixou o conforto da cidade natal e estabilidade de funcionário público para arriscar-se no próprio negócio

Um sonho: melhorar de vida. Oito anos depois, ele comemora as conquistas do trabalho duro

Empadinha Mineira tem duas lojas em Florianópolis, dois carrinhos na praia durante a temporada

A maior parte dos empreendimentos nasce de um sonho ou de uma insatisfação – algo que funcione como combustível para a busca pela mudança. No caso de Lucas Baganha, de 34 anos, foi a falta de perspectiva na carreira de funcionário público que acendeu a vontade de abrir o próprio negócio.

“Eu trabalhava na Prefeitura da minha cidade, em Pouso Alegre (MG), mas queria sair daquela condição do funcionalismo público. Por mais que você trabalhe, não vai crescer. Eu queria lutar para melhorar”, afirma Baganha.

Para Jonas Nicodemo, gerente regional do Sebrae em Piracicaba, ter uma perspectiva melhor é exatamente uma das vantagens de abrir o próprio negócio. “Você trabalha de forma mais estratégica e aumenta as chances de ganhar mais. Além disso, você pode fazer algo que verdadeiramente gosta e deixar sua marca”, diz ele.

Lucas Baganha já tinha esse objetivo claro em mente quando um amigo o convidou para abrir uma loja de empadas em Santa Catarina, onde a mãe desse amigo morava. O produto era famoso em Pouso Alegre, especialmente pelo sabor e pela variedade de recheios. “Como sabíamos que era uma empada muito boa, achamos que poderia dar certo”, diz.

Baganha aceitou a proposta, deixou a estabilidade do emprego público e decidiu arriscar. Em seguida, colocou o carro financiado à venda para levantar algum dinheiro e, poucos dias depois, já estava no avião. “Esse meu amigo apareceu com a ideia e eu falei ‘vamos’. Só tinha certeza que não podia continuar trabalhando com o que eu estava trabalhando”, afirma.

Era maio de 2011 quando os dois jovens abriram uma pequena loja de empadas na entrada de um supermercado de Palhoça, cidade na Grande Florianópolis. O investimento inicial foi de 10 mil reais.

“No começo, foi meio na intuição e coragem de tentar empreender, até mesmo sem dinheiro”, diz Baganha.

E assim nascia a Empadinha Mineira, uma marca que começou muito pequena e hoje tem duas lojas, dois carrinhos na praia e uma cozinha industrial.

A história de Lucas Baganha, contudo, é um caso de sucesso em meio a tantos fracassos. Segundo Jonas Nicodemo, do Sebrae, uma em cada três das empresas abertas no país fecha as portas em menos de 2 anos. A principal causa é a falta de planejamento.

Mesmo escapando dessa estatística, o caminho do dono da Empadinha Mineira não foi tão fácil como pode parecer. Algum tempo depois de abrir a loja de Palhoça, a sociedade com o amigo não deu certo. O motivo foi algumas divergências na gestão do negócio.

Baganha não queria desistir e encontrou uma nova sócia. Roberta Santos, 26 anos, também era da cidade de Pouso Alegre e estava disposta a continuar o negócio com ele.

Para ajudar na retomada, o empreendedor decidiu se preparar um pouco melhor, fez cursos no Sebrae, leu livros sobre empreendedorismo e pesquisou bem o mercado consumidor. Segundo ele, as informações foram essenciais para prepará-lo de verdade para o negócio. Decidiram, então, reabrir a Empadinha Mineira em Florianópolis, pois acreditavam que o turismo das praias poderia alavancar as vendas, especialmente no verão.

Escolheram como local de venda a praia dos Ingleses, no norte da ilha, por ser a região de praia com maior população fixa e maior número de turistas na temporada. Alugaram um apartamento pequeno e montaram ali a cozinha industrial. A empresa estava renascendo, mas dessa vez com mais força.

Lucas Baganha conta que passou muita dificuldade nos anos seguintes. Ele e a sócia faziam tudo sozinhos: preparavam a massa, produziam o recheio, montavam as empadas, assavam, embalavam e saíam a pé pelo bairro oferecendo no comércio, de porta em porta.

Como o negócio estava apenas começando, não costumavam vender mais de 15 empadas por dia. Nos meses de inverno a situação era ainda mais difícil. “Às vezes a gente vendia apenas 12 e ficava desesperado, porque precisávamos de dinheiro”, diz Roberta. Nessa época, Baganha tinha apenas R$ 5 por dia para gastar no almoço.

“Muitas vezes faltou dinheiro. Deixei uma vida boa em Minas, onde morava com minha família, e vim para cá. Eu acredito que muita gente, com o começo que tivemos aqui, desistiria”, conta o empreendedor.

Mas eles persistiram. Com o tempo, o produto foi ficando conhecido, os clientes gostaram bastante do sabor e as vendas aumentaram de 15 para 30, 40 empadas por dia. A fama chamou a atenção de cafés e lanchonetes da cidade, que ficaram interessados em revender as empadas.

Quando o verão chegou, no fim de 2011, os empreendedores viram que era hora de levar o produto para a praia. A ideia deu certo e as vendas mais que duplicaram: foram de 40 para cerca de 100 empadas por dia. O trabalho também aumentou, e muito. Nessa época, um primo da sócia de Lucas Baganha ficou um tempo em Florianópolis para ajudá-los.

Os três acordavam cerca de 6h30, faziam as empadas, colocavam-nas em cestinhas de palha e partiam para a praia. À tarde, voltavam para o apartamento e faziam mais uma rodada de empadas. Bem no fim da tarde, encerravam as vendas e iam ao supermercado comprar mais ingredientes. Por fim, voltavam para o apartamento e deixavam tudo limpo para o dia seguinte.

“Das 24 horas do dia a gente dormia umas 6 horas e o resto trabalhava. A gente só trabalhava”, diz Roberta. A falta de um carro também deixava o cansaço ainda maior, contam. Isso porque todos esses percursos eram feitos a pé e, muitas vezes, embaixo de sol quente.

“Para vender para os cafés a gente pegava caixas de isopor grande, colocava as empadas congeladas dentro e pegava ônibus. Não existia Uber, só táxi. E a gente não ia pegar táxi para entregar empada, né”, diz Roberta.

Para se ter uma ideia de como batalharam nesse início do negócio, a cestinha de palha onde as empadas eram transportadas virou um verdadeiro símbolo da empresa e é lembrada até pelos clientes.

Com as vendas indo de vento em popa e o produto cada vez mais conhecido, a Empadinha Mineira deslanchou. No ano seguinte, os empreendedores compraram dois carrinhos para ajudar nas vendas da praia e, há 4 anos, abriram a primeira loja.

Hoje, quem toca a empresa é Baganha e Maria Donizetti Pereira, mãe de Roberta. A empresa revende para 18 cafés, tem duas lojas (uma no centro da cidade e uma na praia dos Ingleses), dois carrinhos na praia durante os meses de temporada e serviço de entrega.

Eles produzem e vendem cerca de 450 empadas por dia. Na temporada, a venda média é de 650, mas nos melhores dias ultrapassa as mil empadas. Das mais de 20 opções de sabores, os mais pedidos são frango e catupiry e camarão. Hoje, o faturamento da empresa é cerca de R$ 60 mil por mês, fora os meses de temporada. Ou seja, ultrapassa os R$ 720 mil por ano.

Recentemente, os empreendedores montaram uma cozinha industrial central onde serão produzidas todas as empadas – hoje feitas nas próprias lojas. Na temporada, a Empadinha Mineira emprega 11 pessoas, incluindo os dois sócios e dois vendedores de praia que ganham uma porcentagem sobre a venda. Fora de temporada, a equipe é formada por 8 funcionários.

Baganha ainda não tem um plano de expansão muito bem definido, até porque acabou de inaugurar a cozinha central e acha melhor ir com calma nos investimentos. Mas sabe que é preciso profissionalizar a produção, revender para mais cafés e abrir novas lojas. Quando a marca estiver consolidada, ele não exclui a possibilidade de abrir uma franquia, “já fiz até alguns cursos para entender melhor como funciona”, diz ele.

Se no começo a maior dificuldade era fazer a marca ficar conhecida, agora o que falta é tempo. “Fazemos tudo, marketing, administração das finanças, produção, atendimento, entregas. Se a gente tivesse tempo até conseguiria crescer mais rápido”, explica Baganha.

Como a loja ainda reinveste parte do lucro, contratar mais funcionários significaria poupar menos dinheiro. Além disso, por se tratar de uma receita “secreta”, os sócios não se sentem seguros em repassá-la a outras pessoas.

Apesar das dificuldades, o dono da Empadinha Mineira não se arrepende de ter trocado o conforto de Minas e a segurança do emprego público pelo sonho de empreender e acha que vale a pena, sim, ter o próprio negócio:

“Você tem que acreditar no que você vende, trabalhar dia e noite e reinvestir o dinheiro que ganha por um tempo. Só assim você consegue crescer.”