A felicidade no trabalho pode estar no próprio negócio

Por Fernanda Santos

Apesar de uma bem-sucedida carreira no mundo corporativo, Daniela Andrade só se encontrou quando abriu uma pequena bomboniere na Vila Olímpia. Conheça a história da criadora da +Kidoces

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Como diz a sabedoria popular, o dinheiro não pode comprar as coisas mais importantes da vida. Quando percebeu que não era feliz no trabalho, a contabilista Daniela Andrade, 32 anos, decidiu largar uma sólida carreira em multinacionais instaladas no Brasil para se jogar de cabeça no próprio, e pequeno, negócio. Formada em ciências contábeis, pós-graduada e com MBA em finanças pela Faculdade Getúlio Vargas (FGV), a empresária passou anos liderando novos projetos em grandes companhias, como a Coca-Cola e a Danone. Mas a exaustiva rotina levou Daniela a questionar as escolhas profissionais que estava fazendo. Ela chegava a trabalhar 18 horas por dia.

“Estava cansada do mundo corporativo. Fui trocando de empresa achando que o problema era a empresa. Por fim, descobri que eu era o problema. Eu trabalhava demais. Queria ter uma vida. Já estava casada, precisava construir uma família”, conta Daniela Andrade, que há 5 anos abriu a bomboniere +Kidoces.

Em busca de mais qualidade de vida, flexibilidade de tempo para cuidar da família e satisfação pessoal, a empreendedora teve a ideia de montar o seu negócio ao conversar com uma amiga que tinha montado o próprio salão de beleza. “Se não quero mais trabalhar em empresas, por que não ter o meu próprio negócio?”, pensou ela. A única certeza era que o dinheiro não seria a principal motivação.

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Nascimento do negócio

Um estudo divulgado pelo Ministério da Saúde em 2018 mostrou que 1 em cada 5 brasileiros consome doces 5 ou mais vezes por semana. Esse é um mercado que movimenta cerca de R$ 12 bilhões todos os anos no Brasil. Daniela usou a intuição para criar o seu negócio. Uma bomboniere próximo ao escritório da Danone, na avenida Paulista, estava sempre cheio e fazia muito sucesso com o público da região.

Interessada no tipo de negócio, a empreendedora ficou amiga do dono da bomboniere e começou a perguntar tudo sobre a loja. A ideia era boa, mas não seria simples largar a estabilidade do emprego fixo, uma carreira em ascensão e o reconhecimento do mercado pelos desafios da vida de dona. O apoio para seguir em frente veio de casa. O marido Adriano Andrade, que trabalha como diretor de controladoria em uma empresa, apoiou a decisão da esposa, que se sentiu confiante para arriscar.

Ao longo de 2013, Daniela se preparou para começar o empreendimento. Com ajuda de Andrade, organizou um bom plano de negócios, estudou o mercado e fez cursos no Sebrae. Como poupou ao longo da vida, a empresária já tinha os R$ 60 mil necessários para o investimento inicial. O passo seguinte seria encontrar um ponto comercial com boa localização e preço de aluguel acessível, que coubesse nesse orçamento. O local escolhido foi a Vila Olímpia, bairro nobre da cidade de São Paulo, onde há muitos escritórios, empresas e comércios.

Após uma busca minuciosa, Daniela fechou o aluguel de um imóvel bem pequeno na rua Gomes de Carvalho. Em fevereiro de 2014, inaugurou a +Kidoces – uma lojinha que vende doces, balas, chicletes, bolos, salgadinhos, bolachas, sorvetes, entre tantos outros alimentos que fazem bastante sucesso com os clientes. A principal dificuldade do começo do negócio, conta ela, foi a insegurança e o medo de a empresa não dar certo.

“Quando abri a loja, meu diretor da Danone falou ‘não acredito que você largou tudo para abrir isso aqui’. Eu pensei ‘meu Deus, que loucura mesmo, coloquei todas as minhas economias nessa lojinha’”, afirma ela.

Mas como desistir não era uma opção, a empreendedora deixou o receio de lado e se jogou de cabeça na vida de empresária. Dona de uma personalidade determinada, Daniela estava disposta a fazer a +Kidoces dar certo. Ela conta que o maior desafio que teve nessa época foi entender como funcionava o dia a dia do comércio, especialmente por se tratar de uma loja que vende uma variedade grande de produtos.

“Sempre digo que se a gente tivesse nascido do tamanho que é hoje, tinha morrido. Fazer o negócio crescer depende muito do feeling do dia a dia. Você acha que um produto vende, mas descobre que não vende”, diz ela.

Mesmo com tanto preparo e experiência em finanças, o primeiro ano de loja não foi fácil. Daniela tinha apenas uma funcionária, que revezava com ela a abertura e o fechamento do estabelecimento. O movimento ainda estava tímido, cerca de 200 clientes por dia, mas as vendas não paravam de crescer. No final de 2014, a empresária precisou aumentar a equipe de funcionários e, em 2015, ampliou o espaço da +Kidoces.

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Reinvestindo o lucro para crescer (e sobreviver)

Nos 2 primeiros anos com o próprio negócio, Daniela não teve salário e reinvestiu todo o lucro na própria loja. Nesse tempo, ela contou com o apoio emocional do marido, que deu força para ela seguir com a vida de dona enquanto ele assumia as despesas de casa. A estratégia de reinvestimento foi importante não só para fazer o negócio caminhar com as próprias pernas como também para aguentar o período de crise econômica que estava por vir.

Em 2017, muitas das empresas que ficam próximas à +Kidoces fecharam ou demitiram empregados em consequência da queda da atividade econômica no País. Daniela conta que um dos escritórios cortou o quadro de funcionários de 270 para 30 pessoas.

“Toda semana várias pessoas passavam na loja se despedindo de mim, porque haviam sido desligadas. Nossas vendas caíram muito. Foi um período bem difícil”, diz Daniela.

O jeito foi apertar o cinto e ser paciente. Ela precisou antecipar alguns recebíveis do cartão de crédito, por exemplo, mas não chegou a tomar empréstimos. Com o tempo, as vendas foram se normalizando novamente. Ainda não atingiram o patamar pré-crise, mas já melhoraram bastante. Hoje, cerca de 700 pessoas passam todos os dias pela loja de Daniela – metade delas no horário do almoço, período mais movimentado do dia. A empreendedora tem 4 funcionários, incluindo uma pessoa que ajuda a cuidar do financeiro da empresa.

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A fidelidade e a concorrência

O know how que faltava quando abriu o negócio chegou com o tempo. Um dos grandes aprendizados foi pegar o jeito de lidar com os clientes, inclusive quando são mal-educados ou grosseiros. “Esses dias um cliente pegou uma nota de R$ 100 e jogou no balcão. O dinheiro caiu no meu pé. Parecia que ele estava me fazendo um favor. Tem gente que não tem coragem nem de falar bom dia”, diz ela.

Mesmo quando chega um cliente de mau-humor, a recomendação na +Kidoce é atender todo mundo muito bem. Ela e os funcionários são sempre atenciosos e gentis com quem passa. Os mais antigos são chamados até pelo nome. Recentemente, uma moça agradeceu a equipe por tratá-la bem quando está usando o uniforme do trabalho. “Isso significa que ela é maltratada em outros lugares. Seria um absurdo eu não a tratar bem. Isso é inaceitável”, diz a empreendedora.

O bom atendimento, além de fidelizar a clientela, ajuda Daniela a lidar com a concorrência. Ela conta que existe uma bomboniere muito parecida com a sua na mesma rua. Como o dono tem mais lojas e um volume de vendas maior, consegue oferecer um preço menor que o dela em alguns produtos.

“Eu só fiquei em paz quando aceitei que não vou concorrer com ele em preço. Vou dar um bom atendimento, rapidez. Outros diferenciais”, afirma ela, que está sempre em busca de novidades para os clientes. “Nossa propaganda é o boca a boca. Existem alguns produtos que nossos clientes só encontram aqui. Queremos que eles saiam felizes.”

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Rotina desgastante, mas feliz

A rotina da empreendedora ainda é bastante puxada, especialmente depois que a primeira filha nasceu, há 4 anos. Ela conta que chega na loja às 10h, mas começa a trabalhar bem antes. Às vezes, ela fica sem bateria no celular antes do meio-dia, de tanto resolver problemas. Daniela explica que é fundamental estar presente no negócio para que ele vá para frente. Ela trabalha praticamente a mesma quantidade de horas – cerca de 18 horas por dia –, mas está bem mais feliz.

“Quem quer empreender deve esquecer a ideia de que a vida de empreendedor é leve. Não é leve, mas é prazerosa. Você tem uma flexibilidade e uma autonomia que o mundo corporativo não dá. Eu não quero voltar para o mercado, se Deus quiser, nunca mais”, afirma Daniela.

Depois de ver a esposa muito mais feliz na rotina de empreendedora, quem quer ter uma vida de dono agora é Andrade, o marido de Daniela. Para isso, o casal traçou planos para o futuro: a ideia é abrir mais duas lojas, sendo que uma deve ser inaugurada ainda em 2019. Com a renda das 3 lojas, ele poderá sair do cargo atual e se dedicar ao negócio. Mas a intenção é parar por aí.

“Eu tinha uma vida profissional estável, mas aquilo não fazia os meus olhos brilharem. Eu gosto de conhecer o rosto dos clientes, gosto de buscar minha filha na escola. Se eu tiver 20 lojas, não vou poder fazer isso. Ganhar dinheiro é importante, mas não é tudo”, diz a empreendedora, que ainda mata um leão por dia, mas nunca se arrependeu da escolha que fez.

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