Ser natural é bom para o planeta e pode ser lucrativo

Por Fernanda Santos

Karina Fattibene sempre quis abrir um negócio de alimentos saudáveis para levar mais saúde às pessoas, ao mesmo tempo que incentiva o pequeno produtor e ajuda a salvar o Planeta

Desde 2017, a empreendedora toca o próprio negócio e batalha para vencer as dificuldades da vida de dono em um mercado que está crescendo rápido. Mas ainda é preciso convercer muita gente sobre o valor da sua proposta

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Há um ano e meio, Karina Fattibene, de 36 anos, deixou a estabilidade do cargo de contadora em uma indústria para tirar um sonho do papel: vender alimentos saudáveis e ajudar o Planeta a ser um lugar melhor para viver. O Mercadinho Natural fica no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo, e cresce a cada dia. Mas quem vê a loja funcionando bem não imagina os desafios que a empreendedora enfrentou até aqui.

O setor de produtos naturais brasileiro é o quarto maior do mundo e não para de expandir. Diante de tantas notícias alarmantes sobre poluição do ar, mudanças climáticas, desmatamento de florestas e contaminação da água, muitas pessoas estão buscando um estilo de vida mais saudável, que também contribua com o meio-ambiente como um todo. Segundo a consultoria Euromonitor, o mercado nacional de alimentação ligada à saúde e ao bem-estar cresceu 98% entre 2009 e 2014 e hoje movimenta cerca de US$ 35 bilhões (ou R$ 140 bilhões) todos os anos. Quase 1/3 da população diz que se preocupa em ter uma alimentação saudável, número alto o suficiente para chamar a atenção dos donos de negócios.

No caso de Karina, mais que aproveitar o crescimento desse mercado, ter uma loja de produtos naturais vai de encontro a um objetivo de vida. Ela e o marido Rodrigo, que também é contador, há tempos planejam vender alimentos saudáveis. A ideia sempre foi ajudar as pessoas a viverem melhor, valorizar o pequeno agricultor e cuidar do planeta. A comida natural e orgânica, acreditam eles, pode curar mais que qualquer remédio.

“Sempre quisemos fazer algo diferente pelas pessoas, trabalhar com alimento, mas um alimento saudável. Fazer diferença. Se todo mundo tivesse essa consciência, teríamos uma comunidade melhor”, diz a dona da loja Mercadinho Natural.

O começo da vida de dona

mercadinho-natural-vila-olimpiaA oportunidade de tirar os planos do papel surgiu em 2017, quando um cliente do escritório de contabilidade da família contou que ia vender o Mercadinho Natural que tocava na Vila Olímpia. Na época, a filha de Karina havia acabado de nascer e a empreendedora sabia que seria difícil conciliar o trabalho fixo com a rotina de mãe. Era uma boa hora para começar o próprio negócio.

Depois de muita conversa, a empresária e o marido decidiram arriscar. O casal fez um plano de negócios e acordou que Rodrigo ajudaria no que fosse preciso, mas continuaria cuidando do escritório. A tarefa de administrar o estabelecimento no dia a dia seria de Karina, que deixou o emprego de contadora para ter uma vida de dona.

Como o mercadinho já funcionava há 5 anos, sua estrutura estava pronta. O casal não precisou montar a loja do zero, o que facilitou o processo de abertura. Os trâmites burocráticos, envolvidos na compra de qualquer negócio, também não foram problema, pois Karina e Rodrigo já estavam habituados a lidar com assuntos relacionados a finanças e contabilidade.

Principais dificuldades do negócio

A maior dificuldade enfrentada por Karina em sua vida de dona foi negociar o aluguel do Mercadinho Natural. A empreendedora conta que, fora o alto valor mensal, ela precisou pagar seguros e outras taxas atreladas ao contrato. Além disso, tem muita dificuldade em conseguir autorização para fazer melhorias no imóvel, como arrumar o telhado que deixa a água passar em dias de chuva.

“Se não tomássemos cuidado, teríamos quebrado no primeiro ano por conta do aluguel. Todo o plano de negócios que fizemos com base no que o antigo proprietário pagava foi por ralo abaixo”, diz ela.

Para reduzir custos, Karina precisou fazer algumas mudanças: trocou fornecedores, bolou receitas novas e internalizou a cozinha. “Desde que assumi o Mercadinho Natural, tenho vivido um período de muito aprendizado”, conta a empreendedora. No primeiro ano, ela teve de colocar dinheiro no negócio para que ele sobrevivesse. Agora, a empresa já caminha melhor com as próprias pernas, mas ainda enfrenta períodos de altos e baixos.

No geral, as vendas crescem no verão, quando os clientes praticam mais exercícios, saem mais de casa e gostam de comer alimentos saudáveis, como saladas e tapiocas. Já no inverno, o movimento cai pela metade, mesmo com as opções mais quentes que Karina inclui no cardápio, como sopas e caldos.

“Nosso cardápio muda um pouco, mas mesmo assim ninguém está a fim. Nosso público é muito fit, consome barrinhas e coisas saudáveis. No inverno, menos gente quer malhar, quem pode não sai de casa”, diz Karina, explicando que nesses meses precisa antecipar recebíveis das vendas pelo cartão para conseguir fechar o mês no azul.

Os alimentos naturais do mercadinho

O Mercadinho Natural vende diversos produtos saudáveis a granel ou embalados, como sucos naturais, castanhas, bolachinhas, cookies e doces – tudo com algum diferencial positivo para a saúde, como ausência de lactose, glúten ou açúcar. Além dos industrializados, Karina vende frutas e legumes orgânicos – que não foram modificados geneticamente nem receberam agrotóxicos no cultivo. Tudo mais saudável. 

Para quem quer uma refeição mais elaborada, a loja também tem alimentos como tortas doces e salgadas, pão de queijo integral, esfirras, tapiocas, omeletes, sanduíches, saladas e sopas. As receitas são preparadas com alimentos orgânicos e levam pouco açúcar, sal, óleo e produtos nocivos à saúde, mas sem perder o sabor.

No cardápio, Karina também busca atender outro mercado crescente: o de vegetarianos e veganos que, entre simpatizantes e adeptos, já somam 30 milhões de brasileiros. Entre as opções de alimentos sem carne estão a coxinha vegana feita de cogumelos, a tapioca de ricota com castanhas, a torta de palmito e os diversos omeletes recheados.

Quando os clientes acham que algum produto ou prato está caro demais, Karina explica que os alimentos naturais e orgânicos no Brasil têm um preço mais alto que os demais, o que acaba encarecendo itens do cardápio. Para se ter uma ideia, 1 kg de peito de frango da linha orgânica Sadia Bio custa R$ 16, enquanto que 1 kg do peito de frango comum da mesma marca custa R$ 9,50. Já o pacote de pão de forma orgânico custa em média R$ 16, contra apenas R$ 5 do pão tradicional.

“Um cliente olhou para mim esses dias e perguntou se um sanduichinho era R$ 16,90. Nosso pão tem fermentação natural, o frango é orgânico. Você paga R$ 16,90, mas está comprando saúde e ajudando o planeta”, afirma a empreendedora.

Mesmo com a resistência de alguns clientes, Karina segue crescendo. A meta agora é fazer o negócio caminhar com as próprias pernas e se sustentar sozinho, independentemente da época do ano. Quando isso acontecer, e empreendedora pretende expandir a empresa e se aproximar ainda mais do objetivo que tem em mente há muitos anos. “Meu sonho é levar essa alegria e esse amor que a gente coloca em cada produto para as pessoas. Eu quero que os clientes que vêm aqui pensem que vendemos poucas coisas, mas pensando no seu bem-estar e no bem-estar do mundo.”

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