Empreendedorismo social: como conseguir investimento?

Por Maria Teresa Lazarini

A partir de soluções sócio-amebientais que garantam retorno financeiro, negócios de impacto social fazem parte de uma indústria que movimenta cerca de US$200 bilhões ao ano

Organizações podem investir ou conceder financiamentos para empresas de impacto social que mostram um plano de negócios robusto. Entenda

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Em 2008, o então estudante Renato Tenório deveria criar uma ideia de solução que envolvesse tecnologia para pessoas com necessidades especiais para um dos projetos da faculdade de comunicação que cursava. Pesquisando o que já existia no mercado para esse público, Tenório percebeu que ainda havia poucas soluções tecnológicas voltadas para deficientes auditivos. Com a ideia de criar um produto que auxiliasse a comunicação desse público, Tenório plantou a semente que no futuro seria a HandTalk: um intérprete virtual que traduz os conteúdos escritos em português para a língua de sinais. 

Depois de ficar engavetada por quatro anos, foi só em 2012 que a HandTalk começou a ganhar a cara do negócio que viria a ser eleito pela ONU como o Melhor App Social do Mundo. O próposito original da empresa era o desenvolvimento de um aplicativo que funcionaria como um intérprete gratuito para deficientes auditivos, mas, percebendo que a solução única dificultaria a rentabilização do negócio, a HandTalk decidiu complementar o portfólio com um produto corporativo de acessibilidade em sites, solução que hoje garante o retorno financeiro para o negócio. 

É a capacidade de rentabilizar o negócio que diferencia o empreendedorismo social de demais iniciativas sociais. Instituições de negócios sociais não são a mesma coisa que ONGs ou ações filantrópicas: por meio de uma solução criada para resolver parte de um problema social ou ambiental, o objetivo do empreendedor social é criar uma iniciativa de impacto enquanto consegue retorno financeiro e lucro que sustente o negócio, diferentemente de uma ONG. E esse é o principal desafio de começar um empreendedorismo social. 

“O maior desafio da HandTalk foi encontrar um modelo de negócios que pudesse funcionar para dar sustentabilidade para empresa enquanto a gente tinha um propósito de impacto. No fundo, esse é o desafio de qualquer negócio de impacto, que é conseguir aliar os objetivos de geração de impacto com os objetivos de geração de receita para a sustentabilidade financeira da empresa”, comenta o coordenador de marketing da HandTalk João Vitor Bogas.  

Hoje, a empresa que começou em Alagoas é um dos maiores nomes em empreendedorismo social no mundo, uma indústria que movimenta cerca de US$200 bilhões de dólares por ano.

Mas, para conseguir chegar onde está, a HandTalk precisou de alguns empurrõezinhos – o que é muito comum para empresas de impacto social. No entanto, o auxílio para esse tipo de empresa é muito diferente que um crédito de um grande banco. Com juros mais baixos e oferecimento de apoio estratégico, o empreendedor que deseja começar um negócio de impacto social agora consegue financiamento ou investimento de empresas que falam a língua dele.

Empreendedorismo social: existe financiamento?

Como na abertura de qualquer empresa, muitos negócios de impacto social precisam recorrer a um financiamento que impulsione o empreendimento. A HandTalk, por exemplo, conta até hoje com aportes externos para o desenvolvimento da empresa, o que já é tendência para a maioria das empresas do tipo. De acordo com uma pesquisa feita pela Ande Brasil (Aspen Network of Development Entrepreneurs) em parceria com a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), US$ 1,3 bilhão foram alocados em investimentos de impacto na América Latina em 2014 e 2015, sendo que o Brasil foi o segundo maior mercado da região. Mas, o empreendedor que busca financiamento e investimento para o desenvolvimento de sua iniciativa social, ainda pode penar para achar uma opção de aporte que se adeque às necessidades do seu negócio. 

“Existe uma oferta abundante de crédito para grandes empresas, através de fundos tradicionais, bancos e instituições governamentais. Assim como existe uma linha consolidada de crédito voltado para pessoa física. Mas para pequenas e médias empresas, que é o contexto da maioria dos negócios de impacto, não há oferta competitiva. Geralmente são juros proibitivos e com prazos de pagamento curtos – o que inviabiliza a contratação desse investimento”, comenta Túlio Notini, head de aceleração da Yunus Corporate, uma organização fundada pelo Prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus para impulsionar negócios de impacto social.

Percebendo a falta de opções de crédito acessíveis para empreendedores sociais, desde 2013 a Yunus Negócios Sociais, no Brasil, oferece aportes financeiros aos empreendedores sociais por meio de um Fundo de Investimentos, regado por investidores externos. Com R$8 milhões disponíveis para investimento em empresas com impacto e inovação social, o Fundo de Investimentos da Yunus é vantajoso não só para o empreendedor, mas também para o investidor.

“Quando um investidor decide aplicar seu dinheiro nesta modalidade de investimento, ele sabe que o importante não é só o retorno financeiro, mas o impacto social que o investimento permitirá alcançar. O retorno imediato do valor investido é secundário, enquanto o impacto do negócio assume a prioridade”, diz Notini, head de aceleração da Yunus Corporate.

Com taxas de juros mais competitivas que os bancos, o investimento da Yunus em empreendedorismo social acontece por meio de tickets entre R$ 200 mil e R$ 3 milhões com um capital paciente: prazo de 4 a 6 anos, incluindo período de carência de principal.

Um outro tipo de aporte financeiro para negócios sociais é a SITAWI Finanças do Bem, uma organização sem fins lucrativos fundada para mobilizar capital para impacto socioambiental. Criada em 2008, a organização foi a primeira no Brasil a desenvolver soluções financeiras para negócios de impacto e já mobilizou mais de R$30 milhões para impacto socioambiental, sendo considerado como o investidor de impacto mais ativo do Brasil. As atuações da SITAWI são por meio de empréstimos, dívida conversível e participação em equity.

Além de oferecer um capital paciente, que são condições de crédito melhores para o empreendedor de impacto social, a SITAWI também oferece uma estrutura de acompanhamento de abertura de redes para o negócio, que acontece por meio de três eixos: apoio estratégico, definição do impacto da empresa e criação de conexões.

“A gente faz um programa de acompanhamento muito personalizado, porque cada organização está em uma fase de crescimento e cada uma pode ter uma necessidade diferente. Por isso, a gente identifica quais são as principais necessidades do negócio e faz reuniões periódicas da nossa equipe com esses negócios, além de outras iniciativas”, comenta Andrea Resende, Gerente de Finanças Sociais da SITAWI.

O tipo de investimento de impacto mais realizado pela organização é o empréstimo socioambiental, que é muito mais acolhedor ao empreendedor que um empréstimo de um grande banco.  Com juros simples de 1% ao mês, a Sitawi trabalha com tickets que costumam começar em R$70 mil e já chegaram a R$1 milhão.

Quando um negócio de impacto social deve recorrer a um aporte externo?

No momento que uma organização decide financiar uma empresa, é construída uma relação de confiança. Quando um aporte é cedido, o credor espera que o negócio de impacto social seja vantajoso e consiga gerar futuros retornos. Para isso, é importante que a empresa que quer um investimento tenha como provar sua estabilidade ao credor.

No caso do investimento da Yunus Corporate, Túlio Notini diz que a organização procura investir em negócios de empreendedorismo social que sejam maduros, escaláveis e disruptivos. Idealmente, eles buscam soluções que já estejam no mercado, por ser mais fácil de medir as perspectivas de sucesso e rentabilidade do negócio. Também são avaliados o empreendedor e a equipe, o modelo de negócios, qual é a tecnologia utilizada e qual a urgência do problema social. Caso o empreendedor se enquadre nos quesitos da Yunus Negócios Sociais, ele poderá entrar em contato com a organização por meio do e-mail contato@yunusnegociossociais.com e solicitar uma análise. 

Na SITAWI Finanças do Bem, também são analisados quesitos de maturidade do negócio. Andrea Resende, que é gerente de Finanças Sociais da SITAWI, comenta que as organizações apoiadas pela SITAWI são aquelas que já atingiram ou estão perto de alcançar o breakeven; momento em que a empresa está no equilíbrio entre lucros e prejuízos. Andrea também lembra que, quando o aporte financeiro é um empréstimo, o negócio de impacto social deve mostrar que apresenta condições de repagamento do crédito para conseguir o mesmo. Nesse caso, ela cita que os tipos de negócios de impacto financiados pela SITAWI geralmente são empresas que estão crescendo, que já passaram pela fase de criação da ideia e modelo de negócios, já tem clientes e agora estão no período de expansão.

A pessoa interessada em um empréstimo com a SITAWI deve ir no site institucional da organização e se dirigir à parte de investimento de impacto, onde há um formulário no qual ela pode se inscrever. Em seguida, a equipe da SITAWI entra em contato com o empreendedor para entender melhor o tipo de organização em questão, qual é a sua necessidade e se ela se adequa aos objetivos da organização. Em caso negativo, eles dão um retorno e encaminham a outras organizações que podem ajudar

João Vitor Bogas, coordenador de marketing na HandTalk, empresa que até hoje conta com investimentos externos de diferentes fontes, ressalta que é essencial para uma empresa de impacto social ter um plano de negócios regularizado para conseguir um financiamento externo.

“Pensando na história da HandTalk, o momento de recorrer a esse financiamento é o momento em que os processos já estão minimamente regularizados, em que a operação já está regular, já se tem um foco de quais são os principais produtos, os principais argumentos de venda e o que penetra mais ou menos no mercado. Isso é extremamente importante para conseguir convencer investidores de quão factível é o seu produto, do quanto ele poderia gerar”, comenta João Vitor Bogas, coordenador de marketing na HandTalk.

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