“De vestidos de noiva, agora confecciono máscaras”, diz pequena empreendedora sobre a crise

Por Maria Teresa Lazarini

Com o avanço do coronavírus, os pedidos de vestidos do atelier de Vânia diminuíram em 80%, mas ela encontrou uma maneira de diversificar as vendas

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A pandemia causada pelo novo coronavírus virou os pequenos negócios de cabeça para baixo. Por conta do isolamento social recomendado pelos governos estaduais, a circulação de pessoas foi reduzida e as aglomerações foram proibidas. Neste cenário, um dos setores mais afetados pela pandemia foi o de eventos, que pode ter o pior ano em duas décadas. A empreendedora Vânia Guimarães, estilista de Ferraz de Vasconcelos (SP), seria uma das pessoas que sentiria essa crise na pele.

Dona de um pequeno atelier focado em trajes de rigor, Vânia, de 36 anos, percebeu que a demanda por vestidos de festas e casamentos diminuiu drasticamente desde o início da quarentena no estado de São Paulo. Com eventos adiados e planos cancelados, a empreendedora não teria muitos clientes para confeccionar peças.

“Desde o começo da pandemia, minhas vendas caíram no mínimo 70%. O que eu consegui manter foram as vendas pela internet de eventos mais futuros”, conta Vânia.

Mas apesar de as vendas de vestidos terem caído, Vânia não sofreu um grande baque financeiro com a crise. Ela já tinha pensado em um plano B.

Preparada para a crise

Foi em meados de fevereiro, quando o Brasil ainda contava com pouquíssimos casos da COVID-19, que Vânia encontrou o pulo do gato. Antenada nas notícias, ela viu que a China já sofria com escassez de máscaras e que a procura pelo equipamento tinha disparado no país asiático. Pensando que o mesmo poderia acontecer no Brasil em pouco tempo, ela percebeu que tinha uma oportunidade de negócio nas suas mãos.

“Muito antes de ser recomendado o uso das máscaras no Brasil, eu já tinha preparado um pequeno estoque de equipamentos para trabalhar produzindo essas máscaras. Foi uma aposta até meio às cegas”, diz a estilista. “Por incrível que pareça, veio a necessidade de usar as máscaras, mesmo as caseiras. E eu já estava preparada, já tinha desenvolvido e estocado as peças”.

Fonte: Arquivo Pessoal
Fonte: Arquivo Pessoal

No início de março, a microempreendedora já estava pronta para vender as suas novas produções. Além de fazer a divulgação para amigos e clientes de seu atelier, ela fez propaganda do novo produto em sites e redes sociais, para tentar alcançar mais clientes. Uma das plataformas que chamou a atenção de Vânia foi o Salve os Pequenos, uma iniciativa que conecta pequenos negócios com clientes por todo o Brasil. Cadastrando seu negócio no site, ela expôs as novas máscaras caseiras para mais de 100 mil usuários da plataforma.

“Eu estava procurando iniciativas na internet que pudessem me ajudar, mas a maioria era para empresas acima do MEI, com mais faturamento. Por um acaso eu vi o site Salve os Pequenos e achei superinteressante, porque era de graça. Entrei lá e me cadastrei”, diz Vânia.

De março até meados de abril, ela conta à Azulis que chegou a produzir e vender mais de 500 unidades. Prometendo um preço abaixo da média, ela viu a venda de máscaras como uma chance de garantir caixa para o seu negócio ao mesmo tempo que ajudava as pessoas que procuravam pelo produto. “Eu pensei em vender máscaras como uma coisa extremamente temporária, um modo rápido de tentar segurar as pontas. Por estarmos em uma situação complicada, eu não quis que fosse nada que remetesse a ganhos, que soasse aproveitador”, diz Vânia.

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De olho nas tendências

A dúvida “loja física ou loja online?” assola muitos empreendedores. Afinal, cada um desses formatos tem suas vantagens e desvantagens. Mas o e-commerce está ganhando cada vez mais força: uma pesquisa divulgada pela Ebit/Nilsen mostrou que a modalidade de negócio cresceu 12% no primeiro semestre de 2019, comparando com o mesmo período do ano interior.

Quem se garantiu no e-commerce antes de a pandemia chegar está passando por tempos menos turbulentos do que aqueles que dependem de um ponto físico. Esse é o caso da Vânia. Sempre antenada nas tendências do mundo do empreendedorismo, ela decidiu oferecer seus produtos também pela internet há mais de um ano.

Com a presença no digital, ela expandiu suas vendas de Ferraz de Vasconcelos para todo o Brasil. “Quando eu comecei a vendar pela internet, encontrei clientes de outros estados procurando pelos meus produtos!”, comenta a estilista.

Em tempos de pandemia, essa diversificação nos meios de venda foi decisiva para o Vânia Guimarães Atelier.

Depois de um mês vendendo as máscaras caseiras, a empreendedora voltou a receber pedidos de sua especialidade: vestidos de festa. Clientes principalmente da região Sul do País procuravam seu serviço para fazer vestidos de debutantes. Já que eventos como esse são planejados com mais de um ano de antecedência, muitas meninas já estão adiantando alguns dos preparativos.

Com a volta de pedidos do nicho de Vânia, a produção de máscara não está mais a todo vapor. No entanto, a empreendedora lembra que a confecção do equipamento foi essencial para segurar as pontas na sua casa quando as demandas de vestidos caíram.  

Mente de empreendedora

A palavra resiliência está presente no vocabulário de Vânia desde o começo de sua trajetória de empreendedora. Antes de abrir o próprio negócio, a estilista trabalhava em lojas, mas teve dificuldade em manter o emprego quando o primeiro filho chegou. Para preservar a renda do lar enquanto cuidava dos filhos, ela aproveitou a afinidade na área da moda para abrir o seu próprio atelier.

Para começar a vendar vestidos de festa, ela precisaria contar com o trabalho de bordadeiras e costureiras, mas o valor cobrado pelas profissionais era acima do que Vânia poderia pagar. Ao invés de desistir da ideia de ter o próprio negócio, a empreendedora resolveu se adaptar. “Fiz vários cursos de costura, a maioria deles gratuito. Comecei a bordar meus próprios vestidos. Assim, nos quatro primeiros eu executei todas as funções no meu atelier”, conta Vânia à Azulis.

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Quando Vânia teve de adaptar seu negócio mais uma vez por conta da pandemia, ela já estava preparada. Acostumada em ser resiliente, ela ergueu a cabeça e fez o que precisava para continuar com a renda do lar, mesmo que isso significasse sair da sua especialidade por um tempo.

“O emocional fica complicado nessas horas: as incertezas, os medos, tudo isso mexe muito né?  Mas a gente tem que filtrar as emoções, os medos. Pra você empreender, principalmente no nosso país, tem que ter força e coragem. Não vai ser em um momento como esse que a gente vai entregar os pontos não. Tem que tirar lição, saber que tem jeito”, finaliza a empreendedora.

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